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quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Ética de princípios

"As duas éticas: a que brota da contemplação das estrelas perfeitas, imutáveis e mortas, a que os filósofos dão o nome de ética de princípios, e a que brota da contemplação dos jardins imperfeitos e mutáveis, mas vivos – a que os filósofos dão o nome de ética contextual.

Os jardineiros não olham para as estrelas. Eles nada sabem sobre as estrelas que alguns dizem já ter visto por revelação dos deuses. Como os homens comuns não vêem essas estrelas, eles têm de acreditar na palavra dos que dizem já as ter visto longe, muito longe... Os jardineiros só acreditam no que seus olhos vêem. Pensam a partir da experiência: pegam a terra com as mãos e a cheiram.

Vou aplicar a metáfora a uma situação concreta. A mulher está com câncer em estado avançado. É certo que ela morrerá. Ela suspeita disso e tem medo. O médico vai visitá-la. Olhando, do fundo do seu medo, no fundo dos olhos do médico, ela pergunta: “Doutor, será que eu escapo desta?” Está configurada uma situação ética. Que é que o médico vai dizer? Se o médico for adepto da ética estelar de princípios, a resposta será simples: “Não, a senhora não escapará desta. A senhora vai morrer.” Respondeu segundo um princípio invariá-vel para todas as situações.

A lealdade a um princípio o livra de um pensamento perturbador: o que a verdade irá fazer com o corpo e a alma daquela mulher? O princípio, sendo absoluto, não leva em consideração o potencial destruidor da verdade. Mas, se for um jardineiro, ele não se lembrará de nenhum princípio. Ele só pensará nos olhos suplicantes daquela mulher. Pensará que a sua palavra terá que produzir a bondade. E ele se perguntará: “Que palavra eu posso dizer que, não sendo um engano (a senhora breve estará curada...), cuidará da mulher como se a palavra fosse um colo que acolhe uma criança?” E ele dirá: “Você me faz essa pergunta porque você está com medo de morrer. Também tenho medo de morrer...”Aí , então, os dois conversarão longamente – como se estivessem de mãos dadas – sobre a morte que os dois haverão de enfrentar.

Como sugeriu o apóstolo Paulo, a verdade está subordinada à bondade. Pela ética de princípios, o uso da camisinha, a pesquisa das células-tronco, o aborto de fetos sem cérebro, o divórcio, a eutanásia são questões resolvidas que não requerem decisões: os princípios universais os proíbem. Mas a ética contextual nos obriga a fazer perguntas sobre o bem ou mal que uma ação irá criar.

O uso da camisinha contribui para diminuir a incidência da Aids? As pesquisas com células-tronco contribuem para trazer a cura para uma infinidade de doenças? O aborto de um feto sem cérebro contribuirá para diminuir a dor de uma mulher? O divórcio contribuirá para que homens e mulheres possam recomeçar suas vidas afetivas? A eutanásia pode ser o único caminho para libertar uma pessoa da dor que não a deixará? Duas éticas. A única pergunta a se fazer é: “Qual delas está mais a serviço do amor?” "

(Rubem Alves, Folha de S. Paulo, 04/03/2008)

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Porque não Debater Sobre Religião?

Tenho me perguntado muito se existe uma razão para as pessoas não debaterem religião. Antes de mais nada, acredito mesmo que existe uma religião que é a melhor para cada indivíduo neste momento em que ele vive, mesmo que seja não ter religião.


A minha religião é a compreensão, é a busca pela verdade, não importa qual seja ela. Não consigo conceber outra coisa que não seja isso: ir atrás da realidade. Por isso, tento incançavelmente debater com colegas das mais diversas religiões, mas tenho pouco sucesso nas tentativas. As pessoas se recusam e quando se permitem fazer, se ofendem facilmente.

O debate só irá te fazer cada ver melhor, a cada um você terá mais conhecimento. Isto só irá te enfraquecer a fé se você não conhecer o suficiente dela. Se não conhece o suficiente, será que realmente acredita? Eu realmente acredito na frase ''Fé inabalável é aquela, capaz de enfrentar a razão, em qualquer época da humanidade ''. E para mim não basta ter fé, eu preciso compreender.

Compreender não é negar. Eu posso aceitar algo que ainda não compreendo, mas não posso aceitar algo que eu já compreendo não ser possível. Por isso acredito na existencia de Deus, apesar de não conseguir compreender essa existência ainda. Antes a minha atitude era a outra. Eu negava o que não compreendia. Pode ser que mais tarde, eu compreenda que Deus não existe. E se eu compreender isso, se essa conclusão for inevitável, que seja então.

Se ninguém questionasse, ninguém debatesse, nunca teríamos nos desenvolvido intelectualmente e moralmente. Isso só acontece quando existe discordância e troca de opiniões.

Alguns só não querem pensar na possibilidade de estarem errados, outros não querem nem correr o risco de ver sua fé desmoronando. Acham que se isso acontecer, terão feito tudo em vão na vida. Deve ser difícil imaginar que toda a base que guiou sua vida pode estar errada. Mas quem disse que o que passou foi a toa? Não foi, te levou a algum lugar. Foi o seu caminho para chegar onde você está.

Você pode achar que eu estou me referindo aos católicos, mas me refiro a todos. Os ateus também são assim. Se recusam a estudar porque podem ter que vir a acreditar. E os crentes fazem da mesma forma. Se recusam a estudar e debater porque podem ter que vir a desacreditar em tudo que acreditaram. Ambos preferem não saber a verdade, não pensar sobre a verdade, porque se a descobrirem, terão que mudar. O homem tem medo da mudança.

A falta de debate leva ao extremismo e às piores épocas da humanidade. Devem existir muitos outros motivos para não se falar sobre religião. Eu fiz o blog basicamente para isso. E você? Qual é o seu motivo?