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quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Recordações do passado

"Somos o nosso próprio passado. Dormem soterradas nos tenebrosos porões do inconsciente as razões das nossas angústias de hoje, tanto quanto estão em nós as conquistas positivas, que lutam por consolidar­-se na complexidade da nossa psicologia, tentando suplantar os apelos negativos que insistem em infelicitar-nos. Estamos a caminho da redenção quando damos apoio consciente às tendências do bem em nós, quando estimulamos, com as nossas lágrimas, e cultivamos,com amor e sofrimento, as sementeiras da paz.

Se, ao contrário, nos deixamos dominar pelas sombras que trazemos no íntimo, paramos no tempo, enquanto se aprofundam em nós as raízes do desequilíbrio, no terreno fértil das paixões que julgamos tragicamente indomáveis, quando são, simplesmente, indomadas. É preciso saber que cabe a nós — e a ninguém mais — domá­-las; mas, enquanto nos apraz o erro, todo o nosso esforço é posto na tarefa inglória de manter soltas as paixões, e presas as recordações.

Para o atormentado pelos seus desequilíbrios, o futuro não importa, o passado não interessa e o presente é a única realidade que aceitam e manipulam livremente, segundo os impulsos do momento.
Comprimidos numa estreita faixa de presente, que procuram viver com toda a intensidade possível, entre um futuro que ainda não existe e um passado que procuram ignorar, esquecem­-se de que não poderão, jamais, fugir às suas responsabilidades e compromissos.

Quando os advertimos dessas incongruências funestas, respondem­-nos que não estão preocupados com o futuro, dado que, ao chegar a vez de sofrerem pelos seus erros, saberão fazê­-lo com dignidade e coragem. Esperam, naturalmente, ser tão valentes perante a dor própria, quanto o são perante a alheia. Trágico e doloroso engano é esse; mas, que se há de fazer? Temos a impenitente propensão para rejeitar como inválida a experiência alheia.

Quanto mais arrogante e belicoso o companheiro desarvorado, maior a dor que experimenta ao despertar para as realidades que procurou ignorar por tanto tempo. A dor dos grandes criminosos é terrível, comovedora, trágica, desesperada, nesses momentos dramáticos em que o Espírito se acha completamente aturdido ante a enormidade de seus erros.

Para abrir diante dele uma janela sobre si mesmo, a chave mais importante de que dispõe o doutrinador consiste em levá­-lo a contemplar seu próprio passado, fortemente protegido pelos mecanismos do esquecimento deliberado. Talvez por isso escreveu Sholem Asch, na abertura de “O Nazareno”: “Não o poder de recordar, e sim o poder de esquecer, constitui uma das condições necessárias à nossa existência.”
"
Este é um trecho do fantástico livro Diálogo com as Sombras, de Hermínio Miranda. Que aplica-se não só ao diálogo com espíritos decaídos, mas também a nós, seres encarnados, vivendo no planeta, já que usamos os mesmos mecanismos em nossas vidas cotidianas.

domingo, 22 de agosto de 2010

No meu tempo é que era bom

Quantas vezes você já ouviu alguém afirmar: "No meu tempo é que era bom... Na minha infância tal coisa era melhor" ou "Não se fazem mais as coisas como antigamente...?"

Possivelmente, tenha reagido com dúvida quanto às maravilhas ou excelências desse "tempo passado", tão diferente, tão melhor.

Por outro lado, pode ter-se mostrado com dúvidas diante de tanta coisa boa "do passado", quando depara com criaturas tão difíceis, complicadas ou negativas no presente.

O que é importante para se refletir é que todo o tempo traz coisas grandiosas e maravilhosas em seu seio, tanto quanto apresenta coisas negativas e lamentáveis.

Assim, não há porque enaltecer o passado e menosprezar o presente, quando encontramos belezas e feiúras num e noutro tempo.

O que caracteriza determinada época são os indivíduos nela renascidos, o que eles realizam e como suas realizações influenciam as sociedades em que vivem, ou mesmo o mundo.

O tempo de Jesus também foi o de Herodes, de Pilatos e de Barrabás.

Enquanto o Divino Mestre semeou luz, amor e paz, a criminalidade foi o legado dos demais: o homicídio, a viciação e a covardia moral.

A época em que viveu Adolfo Hitler, também foi o tempo de Mohandas Gandhi e de Madre Teresa.

Uma determinada coisa não é boa por ser antiga, nem é má por ser atual.

Bom é que saibamos aproveitar as coisas boas, sejam do passado ou do presente.

Aprendamos a rechaçar a impostura negativa de ontem como a de agora, evitando apegos indevidos a tradições retrógradas e perturbadoras, ou a inovações descabidas e às vezes criminosas.

* * *

A nostalgia descreve uma sensação de saudades de um tempo vivido, frequentemente idealizado e irreal.

Ela surge a partir do sentimento de não poder mais reviver certos momentos da vida.

Quando ela se desenvolve como um relembrar feliz, otimista, que coloca luz no coração, ela será sempre saudável.

Porém, quando ela descamba para o estado depressivo, negativo, de não conseguir mais voltar no tempo e viver aquele momento de novo, ela passa a ser nociva.

As pessoas que vivem no passado são comumente tristes e deixam de aproveitar o que a vida tem a oferecer agora, no tempo presente.

Reviver o passado é bom quando se tem o objetivo de aprender com os erros e com os acertos.

Reviver o passado é ruim quando a intenção é a fuga da realidade.

Assim, reflitamos muito antes de voltar a dizer: No meu tempo é que era bom.

Qual é o nosso tempo? O de ontem, que não volta? Ou o de agora, quando ainda temos chances de transformar, de refazer, de mudar?

Passado não existe mais. Futuro não existe ainda. Entre a inexistência desses dois tempos, o que nos resta, senão bem viver o agora?

Pensemos nisso já.

Redação do Momento Espírita com base no cap. 9,
do livro Ações corajosas para viver em paz, pelo
 Espírito Benedita Maria, psicografia de
Raul Teixeira, ed. Fráter.
Em 09.08.2010